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GUINADA ELEITORAL

Do domínio do PSDB à força do bolsonarismo: como o voto mudou em Jundiaí de 2014 a 2026

De Miguel Haddad a Flávio Bolsonaro, resultados eleitorais revelam mudanças no perfil das votações da cidade; candidato do PL recebeu 161.594 votos no segundo turno, enquanto Tarcísio e Derrite também registraram votações expressivas em 2026.

Jaime Lima
· atualizado ontem às 21h34 · Jundiaí
Foto: Reprodução/Instagram André do Prado

Em 2014, Miguel Haddad (PSDB) recebeu 91.673 votos em Jundiaí, concentrando sozinho 50,26% dos votos válidos para deputado federal. Doze anos depois, o mapa eleitoral apresenta outra configuração: candidatos identificados com Jair Bolsonaro passaram a ocupar posições de destaque nas votações municipais, enquanto antigas lideranças tucanas migraram para outras legendas.

A transformação ganhou força em 2018 e voltou a aparecer nas urnas de outubro de 2026, quando Flávio Bolsonaro recebeu 161.594 votos (61,69%) para presidente no segundo turno, realizado no domingo, 25 de outubro.

Na mesma eleição, Tarcísio de Freitas conquistou 164.622 votos para governador e Guilherme Derrite alcançou 151.728 para senador.

O resultado presidencial de 2026 confirmou a diferença entre o comportamento do eleitorado jundiaiense e o resultado nacional. Flávio Bolsonaro foi o mais votado em Jundiaí, mas Lula venceu a eleição brasileira e foi reeleito presidente da República.

De Miguel Haddad à ascensão de Bolsonaro

Em 2014, além da votação de Miguel Haddad, Luiz Fernando Machado, também do PSDB, conquistou 82.674 votos em Jundiaí para deputado estadual. Naquele pleito, Eduardo Bolsonaro recebeu 665 votos para deputado federal.

Quatro anos depois, Miguel permaneceu como o federal mais votado, mas caiu para 46.378 votos, redução de 49,4%. Eduardo Bolsonaro saltou para 21.570, enquanto Joice Hasselmann, também do PSL, alcançou 15.435.

Juntos, dez candidatos do partido de Jair Bolsonaro somaram 48.626 votos, número superior à votação individual de Miguel Haddad naquele pleito.

Na disputa estadual, Gustavo Martinelli (PSDB) recebeu 33.030 votos, contra 31.942 de Janaína Paschoal (PSL).

O próprio Jair Bolsonaro conquistou 142.656 votos (62,03%) no primeiro turno presidencial de 2018 e chegou a 173.143 votos, aproximadamente 78%, no segundo, contra 48.827 de Fernando Haddad.

A votação de 2018 estabeleceu um recorde nominal para presidente em Jundiaí na série municipal disponível desde 1994.

De Jair a Flávio: a votação de 2026

Mesmo derrotado nacionalmente por Lula em 2022, Jair Bolsonaro voltou a receber mais votos em Jundiaí, com 160.078 votos (63,67%) no segundo turno.

Em 2026, seu filho Flávio Bolsonaro recebeu 145.880 votos (57,93%) no primeiro turno, contra 76.564 votos (30,40%) de Lula.

Em números absolutos, Flávio superou em 3.224 votos o desempenho do pai no primeiro turno de 2018, embora seu percentual de votos válidos tenha sido inferior.

A eleição, entretanto, ainda teria um segundo capítulo.

No domingo, 25 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro recebeu 161.594 votos em Jundiaí, equivalentes a 61,69% dos votos válidos.

Lula obteve 100.339 votos (38,31%).

A diferença entre os dois candidatos no município foi de 61.255 votos.

Em relação ao primeiro turno, Flávio acrescentou 15.714 votos, enquanto Lula ampliou sua votação em 23.775 votos.

O resultado mostra que os dois candidatos cresceram em números absolutos, com aumento maior para Lula entre os turnos.

Flávio recebeu 1.516 votos a mais que Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, quando o ex-presidente somou 160.078 votos na cidade.

Entretanto, ficou 11.549 votos abaixo dos 173.143 registrados por Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018.

A comparação revela que, embora Flávio tenha ultrapassado a votação nominal do pai em 2022, não repetiu o recorde alcançado em 2018.

Os percentuais também foram diferentes: Jair recebeu 63,67% dos votos válidos em 2022, enquanto Flávio terminou o segundo turno de 2026 com 61,69%.

Lula é reeleito no Brasil, mas Flávio recebe mais votos em Jundiaí

O resultado municipal contrastou com o nacional.

Com a apuração concluída, Lula foi reeleito presidente da República com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos.

Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%.

Em Jundiaí, no entanto, Flávio concentrou 61,69% dos votos válidos e Lula, 38,31%.

A votação local confirma uma diferença entre o resultado presidencial do município e o resultado nacional, fenômeno que também esteve presente em 2022.

Tarcísio, Derrite e a pauta da segurança pública

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), apoiado por Bolsonaro, conquistou 164.622 votos (69,88%) em Jundiaí em 2026, contra 68.661 de Fernando Haddad.

Na disputa pelo Senado, Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual da Segurança Pública, recebeu 151.728 votos.

O número supera as votações municipais de dois nomes eleitos anteriormente para o cargo: Major Olímpio (PSL), com 109.640 votos em 2018, e Astronauta Marcos Pontes (PL), com 121.915 em 2022.

Derrite obteve 42.088 votos a mais que Olímpio e 29.813 a mais que Pontes.

A comparação envolve eleições nas quais o eleitor podia escolher dois senadores, em 2018 e 2026, e apenas um, em 2022.

André do Prado (PL), também eleito senador, alcançou 143.611 votos em Jundiaí.

A presença de policiais e ex-integrantes das forças de segurança entre lideranças desse campo político evidencia a participação de figuras ligadas ao setor nas disputas eleitorais.

Major Olímpio construiu sua trajetória na Polícia Militar, enquanto Derrite ganhou projeção pela atuação policial e pela gestão da segurança paulista.

Os resultados, isoladamente, não permitem determinar quanto do voto recebido por esses candidatos foi motivado especificamente por propostas de segurança pública.

Basson e Pavanato crescem; rompimentos marcam derrotas

O crescimento de candidaturas associadas a Bolsonaro também apareceu nas disputas proporcionais.

Leandro Basson (Podemos), eleito deputado estadual, recebeu 38.151 votos em Jundiaí.

Embora tenha deixado o PL, mantém histórico público de apoio a Jair Bolsonaro, tendo declarado ao Jornal de Jundiaí, em 2023, que votou no ex-presidente e participou de sua campanha eleitoral em 2022.

Na disputa federal, Lucas Pavanato (PL) recebeu 25.493 votos, ficando atrás de Luiz Fernando Machado, também do PL, com 68.726 votos.

Somados, os dois candidatos alcançaram 94.219 votos no município.

Entretanto, nem todos os políticos que participaram da ascensão eleitoral de Bolsonaro conservaram suas votações após divergências com o ex-presidente.

Uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, Janaína Paschoal, recebeu 31.942 votos em Jundiaí para deputada estadual pelo PSL em 2018.

Posteriormente, rompeu politicamente com Bolsonaro, criticando sua postura durante o governo e defendendo sua saída da Presidência em março de 2020, durante a pandemia.

Em 2026, disputando uma vaga de deputada federal pelo PP, obteve 341 votos em Jundiaí, redução de 98,9% entre eleições para cargos diferentes.

No estado, recebeu 46.773 votos e não conseguiu se eleger.

Após a derrota, questionou na tribuna da Câmara Municipal de São Paulo: “Por que eu não recebi seu voto?”

Joice Hasselmann também entrou em confronto com Bolsonaro após participar de sua campanha e receber 15.435 votos em Jundiaí pelo PSL em 2018.

Em 2022, já pelo PSDB, obteve apenas 83 votos no município.

No mesmo intervalo, Carla Zambelli, que permaneceu politicamente alinhada ao então presidente, passou de 860 para 11.404 votos.

Os casos mostram quedas e mudanças expressivas de desempenho após rupturas políticas, embora os resultados não comprovem que os rompimentos tenham sido, isoladamente, responsáveis pela perda de votos.

Luiz Fernando: do PSDB ao PL

A trajetória de Luiz Fernando Machado representa uma das mudanças partidárias mais simbólicas da política local.

Em 2014, ainda no PSDB, conquistou 82.674 votos em Jundiaí para deputado estadual.

Em 2026, já pelo PL, recebeu 68.726 votos para deputado federal, diferença de 13.948 votos, ou 16,9% a menos.

A comparação envolve cargos diferentes e não permite atribuir a redução exclusivamente à perda de apoio político.

Em entrevista à revista Veja, em 2023, quando ainda integrava o PSDB, Luiz Fernando questionou:

“O eleitor que a gente costuma chamar de bolsonarista foi um eleitor nosso. Por que fomos substituídos?”

Meses depois, deixou o partido ao qual esteve filiado por 19 anos e ingressou no PL, durante evento com Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e outras lideranças.

A visita também resgatou a ligação pessoal do ex-presidente com Jundiaí.

Bolsonaro viveu parte da infância no Vianelo, estudou no Grupo Escolar Coronel Siqueira de Moraes e, em junho de 2023, visitou a antiga residência da família na Rua João Scabin.

Uma mudança que ultrapassa as legendas

Entre 2014 e 2026, Jundiaí passou da concentração de votos em tradicionais candidatos tucanos para uma distribuição mais ampla entre nomes locais e lideranças de projeção estadual e nacional, com participação expressiva de políticos identificados com Bolsonaro.

A eleição de Derrite, Basson e Luiz Fernando Machado mostrou que esse alinhamento também se manifesta em legendas diferentes.

Ao mesmo tempo, as trajetórias de Janaína Paschoal e Joice Hasselmann ilustram como políticos que participaram da ascensão de Bolsonaro seguiram caminhos distintos após divergências com o ex-presidente.

O resultado presidencial de outubro de 2026 acrescenta um novo elemento à série histórica.

Flávio Bolsonaro recebeu 161.594 votos em Jundiaí, ultrapassou a votação do pai no segundo turno de 2022, mas permaneceu abaixo do recorde de 2018.

Os resultados não comprovam que antigos eleitores do PSDB migraram automaticamente para o bolsonarismo. Partidos, candidatos e circunstâncias eleitorais mudaram.

Mas a sequência histórica documenta uma transformação: o PSDB perdeu a posição que ocupava nas urnas de Jundiaí, enquanto políticos ligados a Bolsonaro passaram a registrar votações expressivas no município — incluindo antigos representantes do próprio partido tucano.

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